Ciência ou política: por que países europeus suspenderam a vacina da AstraZeneca/Oxford?

Países europeus suspendem vacina
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Vacina da Astrazeneca está sendo rejeitada por países europeus

Vacina da Astrazeneca está sendo rejeitada por países europeus Foto: Reprodução

Primeiro foram Áustria, Dinamarca e a  Noruega. Depois, Espanha, França, Alemanha, Portugal, e nesta  terça-feira (16), a Suécia. Um após o outro, países europeus suspendem a vacinação com o imunizante da AstraZeneca/Oxford desde a última semana, após casos de coágulos sanguíneos e tromboses. A Agência Europeia de  Medicamentos (EMA) diz que a vacina é benéfica, mas baterá seu martelo  na próxima quinta-feira (18). A interrupção acontece em meio a uma crise de fornecimento do laboratório anglo-sueco à União Europeia e levanta  suspeitas de que a decisão não seja apenas científica.

A Áustria anunciou em 8 de março que estava suspendendo um lote específico da vacina AstraZeneca/Oxford, fabricado na Europa, depois da morte de uma enfermeira de 49 anos. Ela  sofreu de “graves problemas de coagulação sanguínea”, alguns dias após  ter recebido o imunizante. 

Três dias mais tarde, foi a vez de Dinamarca, Islândia e Noruega  interromperem o uso do produto devido a relatos de formação de coágulos  no sangue de alguns pacientes. Na Noruega, foi registrada a morte de  três profissionais de saúde, vacinadas e com menos de 50 anos.

Após os primeiros anúncios, a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Agência  Sanitária Europeia (EMA) e a Sociedade Internacional de Trombose foram a público defender a continuidade da vacinação, afirmando que as dezenas  de casos relacionados a trombose registrados na Europa não estão  necessariamente associados à vacina. Além disso, as reações são ínfimas, comparadas ao número de pessoas vacinadas.

"O pequeno número de registros de eventos trombóticos entre milhões de  vacinados contra a Covid-19 não sugere um ligação direta [entre o  imunizante e o problema]", afirmou a Sociedade Internacional de Trombose e Hemostasia em um comunicado do dia 12 de março. A associação médica explicou que incidentes de trombose são comuns na  população em geral e indicou ainda que nunca antes foi estabelecida  relação comprovada entre trombose com qualquer imunizante. 

Após o anúncio de que Portugal, Espanha, França, Alemanha, Itália e uma lista que não para de crescer também iriam parar sua vacinação  “por precaução”, a OMS voltou a insistir que o imunizante deve continuar a ser usado. 

Nesta terça-feira, a presidente da EMA, Emer Cooke, explicou que todos os  casos de problemas de coagulação relatados estão sendo avaliados pela  agência e que, até o momento, não há indícios de que tenham relação com a vacina. Até o dia 10 de março, 30 casos haviam sido reportados em todo o bloco europeu, segundo a agência.

"O número de eventos tromboembólicos em geral nas pessoas vacinadas parece não ser maior do que o observado na população em geral", afirmou  Cooker. "Em ensaios clínicos, tanto as pessoas vacinadas como as que  receberam o placebo mostraram um número muito pequeno de desenvolvimento de coágulos sanguíneos", continuou.

A agência dará seu parecer final sobre a segurança da vacina da AstraZeneca/Oxford na quinta-feira (18).

Vacinação lenta e pressão por entrega

O presidente da Confederação dos Sindicatos Médicos Franceses, Jean-Paul Ortiz, criticou a paralisação da campanha de uma campanha de vacinação que já é considerada lenta.

“É uma decisão muito política que não tem hoje nenhuma base científica e  que, como médico, isso me preocupa”, afirmou. “Eu chamo atenção para o  fato de que a Inglaterra vacinou 20 milhões de pessoas”, sublinhou  Ortiz. 

A vacina da Astrazeneca/Oxford é um dos principais imunizantes usados na  campanha contra Covid-19 pela União Europeia, ao lado do produto da  Pfizer e da Moderna. No entanto, repetidos atrasos na entrega do  laboratório anglo-sueco têm atrapalhado os planos europeus.

O bloco europeu deveria receber 180 milhões de doses no primeiro semestre de 2021. Mas recentemente o laboratório afirmou que só terá condições  de entregar 100 milhões de doses neste prazo devido a problemas em sua  linha de produção na Bélgica.

Os governos europeus aumentam o tom e pedem mais pressão sobre o  laboratório que tem fornecido em grandes quantidades ao Reino Unido, um  dos países com mais vacinados no mundo. Nesta terça-feira, a ministra  francesa da Indústria, Agnès Pannier-Runacher, defendeu que a União  Europeia ameace o laboratório com as cláusulas de quebra de contrato  “para que eles sintam a pressão”, durante uma entrevista para a rede Franceinfo.

Sem muitas doses de Astrazeneca nos refrigeradores, o custo de retardar a  vacinação de sua população com este imunizante não é tão alto e poderia  ser uma forma de pressionar pela aceleração nas entregas.

Por outro lado, esperar uma orientação da agência sanitária pode reduzir a  desconfiança da população em relação às vacinas contra a Covid-19, um  problema sério em alguns países do continente europeu. 

Preocupação com a vacinação no resto do mundo

Enquanto isso, a OMS tenta garantir que a vacinação continue pelo mundo. "Não  queremos que as pessoas entrem em pânico e, por enquanto, recomendamos  que os países continuem a vacinar com a AstraZeneca", disse a  cientista-chefe da instituição, Soumya Swaminathan. 

O imunizante da Astrazeneca/Oxford, um dos mais baratos, é essencial para o abastecimento das nações mais pobres pois faz parte do programa  Covax.

O coronavírus, que continua a infectar milhares de pessoas no mundo  diariamente, já matou 2,7 milhões de pessoas. Como destacou a presidente da EMA, até o momento, a vacina continua a ser muito mais benéfica do  que todos os efeitos colaterais comprovados.

Fonte: www.thestartmagazine.com

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