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O novo normal exige novos hábitos

Redes sociais e a importância da consciência cidadã em tempos de pandemia
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Por José  Francisco da Costa 

Profissional de Marketing; Especialista em Gestão Pública Municipal; Chefe de Gabinete na Assembleia Legislativa do Piauí; Secretário de Finanças na Executiva Municipal do Partido Verde em Teresina – Piauí

Já parou para pensar quantas vezes usamos o celular para pesquisar um tema especifico?  Ou em qual plataforma tecnológica adquirimos um conhecimento a mais para nossa vida? Ou ainda, além das redes sociais, o que mais acessamos no mundo da internet?

Usar ferramentas de comunicação atualmente para pesquisar, administrar, contratar serviços, dentre outros, passa a ser uma exigência do novo normal e significa apropriar-se de novos hábitos da sua utilização a favor da mudança de comportamento imposta à sociedade em estado de pandemia globalizada. Acabamos, portanto, usando as mídias digitais para exercer de formas diferentes a nossa cidadania e, muitas vezes, não nos damos conta. Viver esses novos tempos e não entender esse processo representa um risco para a sociedade e também para a democracia. Além disso, para o indivíduo, representa a precarização da garantia dos seus direitos constituídos.

O avanço da pandemia transformou drasticamente a nossa realidade e nosso cotidiano. Para boa parte dos brasileiros, esse novo cenário de medidas restritivas e de isolamento social representou uma busca por novas ferramentas de comunicação e de interação. Não podemos negar a importância dos dispositivos móveis e da própria conexão com a internet como carros-chefe desse processo. Segundo a Anatel, no final do ano de 2020, foi registrada no país uma alta de 10,4% na contratação de planos de banda larga fixa, enquanto que a venda de feature phones (smartphones de entrada) gerou às empresas do setor um aumento de 48% nas receitas (VASCONCELOS,  2021). Além disso, serviços de entrega e de delivery registraram aumento na demanda em até 300% no início da pandemia. (FERRARI, 2021)

A utilização em massa dessas ferramentas aliada ao despreparo de muitos usuários contribuiu para aumento no índice de crimes e fraudes virtuais, dentre as quais podemos mencionar a tentativa de roubo de dados pessoais e a propagação de fake news. Segundo a FEBRAPAN, tentativas de golpe de pishing, isso é, quando os usuários são direcionados para sites falsos com o intuito de que suas informações sejam roubadas, aumentaram em 80% desde o início da pandemia. Ao mesmo tempo, um estudo publicado pela Avaaz afirmou que cerca de 7 em cada 10 brasileiros, cerca de 110 milhões de pessoas, acreditam em ao menos uma notícia falsa sobre a pandemia ou sobre o novo coronavírus e acrescenta ainda que a principal fonte de informação dessas pessoas são as redes sociais como WhatsApp e Facebook.

Saporski (2020) explica que as redes sociais tem o poder de influenciar o comportamento dos jovens e até mesmo dos adultos. Segundo esse autor, as fake news podem dar início a uma guerra se “bem feitas”. E não faltam exemplos do poder de influência das redes sociais no mundo. As eleições norte-americanas de 2016 foram alvo de investigações pelas agências reguladoras do país sob a suspeita de que ataques massivos com a disseminação de fake-news possam ter alterado os resultados da votação. No Brasil, o Supremo Tribunal Federal investiga, através de inquérito, a disseminação proposital de notícias falsas e a influência que possam ter tido na organização e motivação de atos antidemocráticos no país. (SCHUQUEL, 2021). Esse mesmo poder de influência é representado em um filme “The Hater” (Rede de Ódio/Netflix), que ilustra a capacidade das redes sociais manipularem a opinião pública caso não exista a autorregulação dos usuários e ocorra o compartilhamento de mensagens de ódio e preconceito, atividade criminosa.

O cenário de pandemia impulsiona ainda mais a utilização dessas ferramentas e a opinião e dados dos indivíduos se transformam no prêmio final e mais valioso para quem pratica os crimes virtuais, capazes de motivar transformações prejudiciais nas práticas democráticas e cidadãs. Vivemos uma situação onde se torna claro a necessidade de fortalecer a consciência crítica dos usuários. Isso é importante para reforçar a compreensão de que cada um de nós, enquanto usuários da rede, influenciamos a sociedade através das decisões que tomamos e das informações que compartilhamos. Em outras palavras, somos responsáveis por essas ações. O próprio Legislativo Federal brasileiro caminha para a aprovação do Projeto de Lei n. 2630/2020, que oficializa essa responsabilidade. A Lei das Fake News, como será chamada quando for aprovada, prevê sanções penais para quem for pego compartilhando notícias falsas.

A solução para essa ameaça é esclarecer essa responsabilidade nas pessoas através da criação e implementação de políticas públicas, do diálogo consciente e do combate à desinformação. Esse processo de entendimento é fundamental para diminuir o risco que a sociedade tem de ser moldada por grupos com interesses distintos daqueles pregados pela nossa Constituição, pelos Direitos Humanos e pelos princípios morais da nossa sociedade. A “infodemia”, termo cunhado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para o problema da disseminação volumosa de notícias falsas dentre notícias verdadeiras, causou pelo menos 800 mortes e 5.876 internações no Irã, ao distribuir a informação falsa de que a ingestão de altas quantidades de metanol curaria da COVID-19. (CARBINATTO, 2020) E quantos outros morreram por não acreditar da seriedade da situação ou na eficácia da vacina, e das próprias medidas de restrições? Infelizmente não é possível mensurar com precisão, o que potencializa o problema.

Não tem jeito, temos que dar o exemplo. E é muito simples, basta exercitarmos nosso senso crítico a respeito de informações importantes que chegam até nós. E repreender quem compartilha também! Seja aquela promoção incrível daquele produto maravilhoso que todo mundo está querendo, seja um desconto promocional de aniversário daquela marca famosa de tênis e artigos esportivos, seja uma notícia sobre a própria pandemia do novo coronavírus, todas tem o potencial de prejudicar milhares de pessoas caso sejam falsas e ainda assim sejam compartilhadas. A responsabilidade cidadã passa por essa postura crítica, que reflete nossa responsabilidade diante das outras pessoas. Aos poucos o exercício se torna hábito e o novo normal se transforma em um futuro onde a responsabilidade social anda lado a lado com o exercício da cidadania. É, portanto, um exercício de cidadania, de responsabilidade, de esperança.

CARBINATTO, B. Centenas de pessoas morreram por causa de fake news sobre Covid-19, diz estudo. SuperInteressante, 2020. Disponível em: https://super.abril.com.br/saude/cen tenas-de-pessoas-morreram-por-causa-de-fake-news-sobre-covid-19-diz-estudo/

FERRARI, W. “Salvação” na pandemia, qual o futuro dos aplicativos de entrega. Novarejo, 2021. Disponível em: https://www.consumidormoderno.com.br/2021/03/23/salvacao-pandemia-futuro-aplicativos-entrega/

SAPORSKI, D. O poder da influência das redes sociais. Olhar Direto, 2020. Disponível em: https://www.olhardireto.com.br/artigos/exibir.asp?id=11660&artigo=o-poder-da-influencia-das-redes-sociais

SCHUQUEL, T. Moraes prorroga inquérito das fake news e dos atos antidemocráticos. Metrópoles, 2021. Disponível em: https://www.metropoles.com/brasil/justica/moraes-prorroga-inquerito-das-fake-news-e-dos-atos-antidemocraticos

 VASCONCELOS, H. Venda de celular sobe 10% no Brasil; auxílio emergencial ajudou, diz estudo. Tilt (UOL), 2021. Disponível em: https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2021/ 01/22/venda-de-celular-sobe-no-3-tri-de-2020-no-pais-auxilio-emergencial-ajudou.htm

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